Contra a cultura da resignação Fernando Martinez Heredia[1]
Hoje, o velho problema da entidade e dos limites do melhoramento humano encontra, sobretudo respostas negativas ou pessimistas. Tanto nossos antepassados quanto nós formamo-nos nos séculos do "progresso", essa ideologia burguesa da civilização, que afirma que tudo deve ir sempre para frente. Nós a assumimos ingenuamente, porque ela parecia favorecer a nós, socialistas, como outra redução das capacidades de desenvolver o marxismo no século XX. Quanto aos fundamentos da ação social, permitiam-nos avançar junto aos burgueses - na verdade, sob o seu domínio – ate chegar nossa vez, tanto histórica como culturalmente; e quanto aos fundamentos teóricos, colocava-nos ao abrigo da "Ciência" - na verdade, sob o evolucionismo e o positivismo para "demonstrar" que tudo progride: do simples ao complexo, do atrasado ao avançado etc. E, naturalmente, tudo isso tornaria as pessoas muito melhores, melhorando também as sociedades. Há algumas décadas pareceu até mesmo que essa ideologia poderia gozar dc aceitação geral, quando se declarou que as sociedades mais avançadas ajudariam as menos avançadas a se desenvolverem. Há alguns anos, porém, toda essa ideologia caiu em grande descrédito.
Esta é a situação da qual partimos. Por isso podemos parecer, os que estamos aqui reunidos - embora a cada ano o nosso número seja maior que no ano anterior unia pequena minoria que - como se costuma permitir tantas coisas - permite-se acreditar nas utopias, no progresso. Gostaria de fazer uma distinção entre ambas as coisas. Opino que, se perseguimos a utopia, preferimos a via revolucionária, e não a evolutiva; e que isso muda as condições e aumenta as possibilidades de conseguir objetivos ambiciosos quanto ao melhoramento das pessoas e às mudanças das sociedades. Este é o primeiro problema que apresento. Existem muitos obstáculos diante dessa via revolucionária.
O primeiro deles é o imenso poder da dominação capitalista nas sociedades atuais, a cultura da dominação. O segundo é o das profundas insuficiências que tem e tiveram as tentativas, as idéias, as visões opostas à dominação. Os movimentos se transformam em organizações, os ideais e os projetos se transformam cm organizações e poder, a liberdade se transforma em ordem e plano, as idéias têm de se transformai- em atuações. Entre esses pares que enumero existem tensões e até mesmo contradições. Como forjar instrumentos eficazes para a libertação que sejam sempre isso, instrumentos a serviço das mudanças libertadoras e das pessoas que lutam pela libertação?
A pesar de todas as insuficiências, retrocessos e derrotas, os movimentos, as idéias e os sentimentos de rebeldia encheram a história humana de experiências, identidades, tradições, representações e projetos que constituem uma acumulação cultural potencialmente muito favorável aos esforços presentes e futuros. Por isso, temos de insistir constantemente em não deixar que nos arrebatem a memória histórica das rebeldias. Justamente por ser valiosa é que tentam fazer com que a esqueçamos, tentam manipulá-la ou banalizá-la. Uma recente obra artística propõe: "Que bom era o rapaz fascista, e que bom era o rapaz guerrilheiro antifascista: como os dois eram bons!".
Os esforços em prol do melhoramento humano sempre estão relacionados à necessidade de mudanças nas sociedades, cm suas relações e instituições fundamentais. Sempre que se absolutizou o aspecto do melhoramento humano com relação à luta por mudanças sociais profundas, ocorreram derrotas ou adequações à dominação. Sempre que se absolutizou o aspecto de ter poderes de grupos em nome da mudança social, terminou-se reproduzindo a continuidade dos sistemas de dominação, em nome dos objetivos de libertação. E houve grandes derrotas. Em ambos os casos, porém, as derrotas foram relativas, pela contribuição dos grandes esforços de libertação humana àquela acumulação cultural à qual me referia antes. Parece-me, então, que a única coisa correta é combinar bem ambas as dimensões: as informações dos indivíduos, das pessoas, e as transformações das sociedades
Embora o capitalismo predomine em escala mundial, seus próprios processos c as iniciativas c lutas de milhões já provocaram mudanças nas pessoas, tornando-as mais capazes de avançar rumo à libertação, e de representá-la de forma mais adequada. Por exemplo, o lugar das mulheres nas sociedades e as relações de gênero apresentam mudanças muito notáveis; mas, além disso, o dever ser que se aceita neste campo é extraordinário com relação ao que foi conseguido, e isso c muito importante. Os desejos e os projetos de realizar esses dever ser encontram obstáculos na ordem existente.
Em segundo lugar, como resultado de tantas lutas e das reformulações dos poderes existentes, ocorreram mudanças nas relações e nas instituições sociais, avanços da organização que tiveram de ser reconhecidos. Por exemplo, já é comum entender que o regime democrático com pleno exercício dos direitos humanos e cidadãos é o único legítimo e desejável. Ainda que sua realização prática seja profundamente limitada e mesmo burlada na maioria das sociedades. Não se pode mais, por exemplo, implantar as formas mais ferozes de repressão institucional em nome da segurança nacional. Qualquer um pode perceber que a ordem existente apresenta obstáculos à realização da democracia.
Existe uma imensa acumulação cultural constituída pelas auto-identificações, pelos caminhos percorridos, pelas provações, pelas lutas, pelos radicalis- mos. Pelas revoluções, pelas negociações, pelas derrotas, pelas adequações e retornos progressivos às maneiras de viver e de governar dos dominantes, que não podem mais mandar como antes. Trata-se de uma massa de experiências, sentimentos e idéias que deixam profundas marcas nos indivíduos e grupos "humanos. e podem contribuir decisivamente para a formação de novas expectativas compartilhadas por grandes grupos de pessoas. As esperanças, os desejos e os projetos são muito mais fortes se já foram formulados antes, seja existiram.
O capitalismo atual é a chave daquilo que muitos chamam de globalização. Não vou opinar aqui sobre as palavras, embora considere que a discussão sobre a linguagem - e o combate no terreno da linguagem - deve ser básica para o conhecimento social, se este ajudar a encontrar caminhos para vencer o sistema em vigor. A universalização dos processos sociais aprofundou-se e acelerou-se nas últimas décadas, e atualmente tornou-se tangível em todas as partes. Determinante nessa tendência, repito, é o controle que o capitalismo exerce sobre ela. Este conjuga a existência de uma profunda e crescente brecha entre os países centrais e a maioria miserável, depredada, explorada e sem oportunidades do planeta, por um lado, com a presença, praticamente em todos os países, de certo número de processos, relações e instituições típicos do capitalismo desenvolvido.
A homogeneização das condutas, dos consumos desejados e dos valores é induzida em escala mundial pelo capitalismo centralizado. Para sua dominação, é essencial que os indivíduos que estão ativos no chamado Terceiro Mundo persigam os ideais que. de forma abstrata, o Primeiro Mundo lhes formula. O que cada modernização na verdade seja equivalente a urna maior sujeição.
O capitalismo atual parece triunfante, porém carece de razões para se mostrar triunfalista. Conseguiu instituir indivíduos históricos universais - aquela primeira premissa da revolução proletária mundial exposta por Marx em 1846 -, e foi bem-sucedido ao universalizar suas instituições. No entanto, mais do que realizar seu proclamado ideal individualista - a oposição livre e egoísta de todos contra todos -, excluiu uma grande parte de pessoas no mundo inteiro da vida que se considera indispensável. O processo profundamente perverso pelo a qual liberdade prometida foi transformada em liberalismo tem provocado atualmente nas maiorias uma impotência política e uma falta de defesa social, assim como formas extremas de miséria material e espiritual. A idéia profundamente errônea de que o homem estava destinado à conquista da natureza não pode ser retificada nem mesmo hoje, quando é óbvio que o próprio planeta corre perigo. E isto se deve ao fato de que o lucro capitalista c o motor principal c incomparável do sistema. O capitalismo. Está enredado no desenvolvimento de.sua própria natureza. Essa contradição insolúvel corrói cada vez mais suas capacidades, antes maravilhosas, de renovar suas instituições e propostas.
A antiga e cativante proposta agora está reduzida a uma cultura do medo, da indiferença, da resignação e da fragmentação. O temor ocupa um espaço importante na cultura do capitalismo. O medo de não poder preservar o precário emprego que se tem, o medo da volta de uma ditadura, o medo de não possuir um cartão de crédito e um guarda armado, ou uma casa, um trabalho, um espaço e uma oportunidade de sobreviver. Reina a cultura da indiferença de uns com relação aos outros, assumindo a forma coloquial de um "salve-se quem puder". A própria idéia da solidariedade parece impraticável. Em amplos setores de populações "civilizadas", os velhos não- encontram outra proteção senão a da morte, como sucede em alguns grupos humanos de vida mais precária do planeta, e cm certas espécies animais; e, ao contrário deles, o mesmo é proposto à infância, mediante a esterilização. A cultura da resignação substitui a impossibilidade dc legitimar tantas iniqüidades mediante as antigas crenças na desigualdade "natural" ou no racismo, a esta altura da história humana. A resignação não desalenta apenas as rebeldias também as mais moderadas exigências sociais e políticas. A cultura da fragmentação ameaça controlar as formas em que se socializam e se admitem as diversidades humanas, para que elas não constituam um enriquecimento social, mas um enfraquecimento dos oprimidos.
Á promessa socialista não pôde ser cumprida no mundo, mas o capitalismo de hoje já nem faz promessas. Está sendo realizada uma gigantesca e sistemática guerra cultural em escala mundial, para impor os consensos do medo. da indiferença, da resignação e da fragmentação. E não é por acaso, porque os níveis gerais de consciência, de conhecimentos ou de lucidez que se alcançaram permitem perceber que está em curso unia degradação dos seres humanos, das sociedades e do ambiente.
Temos de ser capazes de ver os sinais de crise. O capitalismo ainda ocupa uma posição muito favorável com relação a formação de movimentos de rebeldia contra ele. Conserva uma extraordinária capacidade de absorver ou desagregar as oposições para.mudar essa situação, a atividade humana de resistência e de rebeldia tem diante de si o desafio de se tornar capaz.
Existem duas posições, duas respostas, que parecem de oposição ao sistema. Insisto em seu caráter prejudicial e em sua ineficácia. Uma delas é o possibilismo) a adequação relativa, a sujeição rigorosa às regras do jogo da dominação e, ate se tornar o paladino das mesmas, a redução ao mínimo possível das diferenças com a ordem em vigor e suas conseqüências. Esta rendição pode ser dissimulada de diversas maneiras, como a oposição declaratória a algumas das formas que assume o capitalismo, ou erigir-se em consciência moral do sistema. O colaboracionismo de fim de século propõe "novidades", como a formação de uma aliança de centro-esquerda, na qual tanto o centro como a esquerda deixem de ser o que se pressupõe que foram e fiquem cada vez mais parecidos um com o outro.
A outra posição consiste em se manter dentro do dogma, da seita e da saudade do passado. Permanecer dentro de uma casa — ou de uma caverna —, não sair ao ar livre: eles parecem acreditar: não importa que sejamos poucos e que ninguém nos perceba, mas assim não,.corremos o risco de perder nossa (suposta) virgindade. O pior é que sua soberba "materialista" ou "proletária" não está presente apenas em clérigos ultrapassados ou interesseiros; também afeta um grande número de companheiros esforçados que querem rejeitar ativamente o capitalismo, lista posição provoca muita confusão, porque parece ser a oposição verdadeira e radical: entretanto, além de ineficaz, ela favorece a hegemonia da burguesia, que assim exige um "inimigo" tolerado c inócuo. Na verdade, ambas as posições, apesar dc terem conteúdos tão opostos, são funcionais com relação à dominação capitalista.
Parece-me então que é imprescindível elaborar e discutir outras posições e formas de ação, elaborar e discutir outros projetos, e que eles estão obrigados a partir da análise mais lúcida e honesta, até mesmo impiedosa e negando falsas ilusões, do existente; e estão obrigados a partir de uma posição de princípios radicalmente anticapitalista. Para esta tarefa, Che Guevara pode ser sumamente importante, se deixarmos de lado apenas sua imagem c assumirmos o seu exemplo. Acredito que Che como exemplo de revolucionário é fundamental, e continuará sendo durante muito tempo. [...]
Apresentarei telegraficamente as características de Che que me parecem que hoje podem constituir contribuições para a utopia de uma sociedade de homens e mulheres novos.
1. Che rompe com o consenso da ordem em vigor. Che é igual a rebeldia. Nas condições atuais, identifica a não-rendição, a constância, a intransigência. Faz parte de uma memória histórica daquilo que os seres humanos podem conseguir por meio da luta. E potencializa o significado dessa memória.
2. Che restabelece a continuidade da proposta anticapitalista socialista, uma corrente especifica de rebeldia e de idéias cuja história vem do século XTX até hoje, da qual nenhuma pessoa honesta pode separar Che Guevara. O socialismo revolucionário conta com uma maravilhosa tradição de lutadores e pensadores, de heróis e mártires, de experiências, idéias e projetos; é a corrente que chegou mais longe em realizações práticas anticapitalistas e foi o horizonte mais revolucionário para as lutas de libertação do mundo, vítima da mundialização capitalista. Contra ela foram utilizadas todas as capacidades do sistema: criminalidade, competitividade econômica, recursos políticos, ideológicos, culturais. O Che rebelde que hoje recebe reconhecimento é um combatente e um pensador que viveu e morreu pelas revoluções socialistas de libertação nacional e pelo projeto comunista dc vida e de sociedade.
3. Che não pode ser identificado com o passado do socialismo, mas com seu futuro. Os esforços e os projetos maravilhosos do socialismo muitas vezes foram desnaturalizados ou abandonados ao longo do século, esmagados ou recortados pelos mesmos que diziam defendê-los. A própria idéia de socialismo foi golpeada e profundamente desprestigiada na última década. Che foi um herege por seu pensamento e por seus atos - assim como a Revolução Cubana - no mundo dos anos 60, quando eram os ortodoxos os "especialistas" da revolução e do marxismo. Este fato coloca Che em condições muito favoráveis de bem servir à tarefa urgente de recuperar a herança de lutas e, sobretudo, de recriar e criar o projeto de mudança mais ambicioso.
4. Atualmente, Che nos propõe mais valores que qualquer outra coisa. Ética, entusiasmo, mística, conseqüência, correspondência entre o dito e o feito, são suas características. Dadas as atuais necessidades fundamentais, c dada a fraqueza organizada dos anticapitalistas hoje em dia, essa proposta pode ser a mais idônea para avançar.
5. Em seu pensamento e em sua atividade, Che desenvolve muito as relações entre a ação e a vida cotidiana, por um lado, e os objetivos finais que todos têm. É o homem dos "como", e não apenas das grandes palavras. O "homem que entrelaça as grandes frases com as tarefas mais concretas, e relaciona as mediações deis tarefas revolucionárias aos princípios gerais que devem regê-las.
6. Che c um pensador marxista da práxis, oposto ao determinismo. Ajuda a fundamentar teoricamente a oposição as formas teorizadas de adequação ao sistema dominante e à resignação como atitude. Ajuda a se opor à espera daquelas que, cm outras épocas, eram chamadas "condições objetivas". Ajuda a fundamentar os papéis da convicção e da atuação, fazendo com que a necessidade de teoria seja viável c eficaz para o movimento revolucionário.
Para terminar, insisto em que as próximas propostas de libertação humana terão de ser muito superiores a todas as que existiram até hoje. E não por excesso de radicalismo, mas simplesmente por necessidade elementar. A contribuição de Che a esse empreendimento grandioso e árduo pode ser decisiva.
[1] Fernando M Heredia é um dos mais importantes e criativos filósofos e ensaístas políticos cubanos. Foi o fundador e principal responsável da revista Pensamiento Critico (1965-71), que publicou autores "heterodoxos" como Herbert Marcuse ou Ernest Mandei, e tentou formular um marxismo cubano e latino-americano em oposição à doutrina estéril difundida pelos manuais soviéticos. Nesta conferência de 1997, ele rende homenagem à memória do Che e busca apontar formas de resistência à ofensiva capitalista atual.