Enquistada no aparelho de Estado, ultra-direita já conspira
Editorial do jornal Brasil de Fato de 10 de novembro de 2008
Em julho de 2007, a grande mídia comercial, orquestrando e orquestrada pelo que há de mais conservador e reacionário no país, criou grande alvoroço em torno da desorganização dos aeroportos e atrasos de vôos. O que poderia ser resolvido com a intervenção do Estado junto às empresas privadas de aviação, principais responsáveis pelo congestionamento, era na verdade uma crise construída para derrubar o então ministro da Defesa, Valdir Pires, e substituí-lo por um outro que atendesse aos reclamos do grande capital e que, entre outras coisas, consumasse a privatização da Infraero. O nome que a direita tirou do bolso do colete, e impôs para suceder o ministro Valdir, foi o do doutor Nelson Jobim.
A grande mídia comercial saudou a ascensão do doutor Jobim. Enfim, um ministro da Defesa (pasta diretamente responsável por garantir o cumprimento da Consituição) que fraudou o texto da Carta.
As sucessivas investidas
do ministro Nelson Jobim
O fato é que doutor Jobim, candidato à sucessão presidencial, não “relaxou”. Rapidamente (nesse quase ano e meio), para além do seu histórico, tem demonstrado isistentemente a que veio (e por quem veio).
As sucessivas investidas contra seus pares – especialmente ministros Tarso Genro, da Justiça, e Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH) – já se tornaram rotina, desde o lançamento, do livro “Direito à Memória”, pelo ministro Vannuchi. Depois disto, foi no mínimo conivente com diversas conspirações e insubordinações da direita militar, entre as quais o ato no Clube Militar (RJ) em desagravo ao torturador e coronel da Reserva, Carlos Alberto Brilhante Ustra. Além de outras estrepolias de igual envergadura, a mais recente foi o ato realizado há poucos dias em aliança com o Clube Naval.
Agora, o ministro ganha aliados: a Advocacia Geral da União (AGU), e o presidente do Supremo Tribunal Federal, senhor Gilmar Mendes.
Em 14 de outubro, a AGU apresentou uma contestação à 8ª Vara Federal Civil de São Paulo, assumindo a defesa dos coronéis Ustra e Audir Maciel.
Doutor Gilmar Mendes
tenta intimidar ministra
O presidente do STF, por sua vez, não se acanhou de vir a público atacar a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, que se declarou contra a extensão da Lei de Anistia aos agentes da repressão política no regime do pós-1964, envolvidos com torturas. Para a ministra, a tortura é crime imprescritível.
Em tom intimidatório, doutor Gilmar partiu em defesa dos torturadores, afirmando que “a imprescritibilidade [do crime de tortura] é uma discussão com dupla face. O texto constitucional diz que o crime de terrorismo também é imprescritível” .
Poderíamos concordar com o doutor Gilmar se ele estivesse se referindo ao terror de Estado implantado em 1964, ou aos diversos grupos de ultra-direita, alimentados por aquele regime, como os casos da tentativa de explosão do Gasômetro (1968 - articulado por militares da Aeronáutica) ou as bombas durante o show de 1º de maio no Rio Centro (1981 – articulado e executado por militares do Exército), ambos no Rio. Para não falarmos outros atentados perpetrados pelo grupo do senhor Sábato Dynotos, em São Paulo, entre os quais as bombas contra o jornal O Estado de S. Paulo, e contra a ponte de ferro sobre o Tietê (ambas em 1968), além, é claro, dos diversos atentados contra teatros em São Paulo, Rio e Porto Alegre.
Mas o suposto terror a que recorre o doutor Gilmar, são as ações armadas das organizações de esquerda que combatiam o terror de Estado. Ora, o direito de se levantar em armas contra o opressor e o tirano está mais que consagrado: assim o fizeram, entre outros, a Guerra de Secessão nos EUA; a Revolução Francesa; as resistências em todos os países ocupados pelas forças nazistas na Europa. E mais: Santo Agostinho já defendia esses métodos contra tiranos.
Aliás, o que o doutor Gilmar ignora (ou finge ignorar), é que, embora a ditadura tenha se utilizado da qualificação de “terroristas” – cunhada nos laboratórios do jornalista Arberto Dines no Jornal do Brasil – contra os militantes da chamada luta armada, nenhum desses/as miltantes jamais foi condenado por “terrorismo”, sequer pela Justiça Militar em vigor.
Além disto, o presidente do STF deveria manter um mínimo de compostura e não se expor como um beócio, que ignora que aqueles a quem pretende intimidar com suas bazófias, já foram torturados, interrogados, julgados, condenados, cumpriram pena e foram anistiados. Ou seja, essas declarações o desqualificam para ocupar o mais alto cargo do Judiciário desta República, pois revelam ignorância e/ou má fé.
Medidas que urgem
Frente a esse quadro, além dos processos contra os torturadores, três outras medidas urgem ser tomadas, sob pena, inclusive, de continuarmos expostos a condenações internacionais, como aconteceu recentemente na Corte Interamericana reunida nos EUA.
As duas primeiras, cabem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva: demitir seu ministro da Defesa – doutor Jobim, e o diretor da AGU – doutor José Antonio Dias Toffoli. Ambos são nomeados pela Presidência.
A terceira, cabe ao Judiciário: através de impeachment ou qualquer outro instrumento legal, destituir o doutor Gilmar Mendes, do cargo que hoje ocupa.
Deixar enquistados no aparelho de Estado personagens que se utilizam desses métodos e práticas, significa conivência com tais procedimentos, cujas conseqüências são das mais graves. Sobretudo se temos claro que, para enfrentar com sucesso a crise que se avizinha, necessitamos fechar todas as brechas para qualquer aventura totalitária.
E não tenhamos dúvida: a saída da crise não será conquistada apenas pelas medidas econômicas mais, ou menos acertadas que se possa tomar. A saída será fundamentalmente política e as conspirações e provocações da ultra-direita já estão em curso.
NB
Um conjunto das mais expressivas entidades de defesa dos Direitos Humanos, organizou e está fazendo circular um importante abaixo-assinado em apoio às políticas desenvolvidas pela SEDH, e ao ministro Paulo Vannuchi. O documento pode ser acessado em nosso site.
As entidades abaixo assinadas manifestam integral e irrestrita solidariedade ao Ministro Paulo Vannuchi, que hoje sofre o constrangimento de ver a Advocacia Geral da União assumir a defesa de torturadores assassinos de presos políticos em frontal oposição à responsabilizaçã o e punição de torturadores e seus mandantes.
O Ministro Paulo de Tarso Vannuchi é um militante dos Direitos Humanos histórico e nunca vacilou na defesa da Democracia e da Justiça. Sua posição em defesa da responsabilizaçã o e punição de torturadores e seus mandantes é baseada na Lei e na visão universal de Justiça.
Fazer a defesa de torturadores é defender a tortura, garantir a impunidade, favorecer sua reprodução aos agentes atuais e incentivar sua prática nos dias de hoje.
Repudiamos a ação da AGU em defesa dos torturadores e exigimos uma urgente retratação pública de seu responsável.
Assinam
- Fórum Permanente de ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo
- Grupo Tortura Nunca Mais - São Paulo
- Associação dos Anistiados e Aposentados do Estado de São Paulo
- Grupo Tortura Nunca Mais - Paraná
- Comissão de Familiares de Presos Políticos Mortos e Desaparecidos
- Fórum de Anistia e Reparação do Estado do Rio de Janeiro
- Instituto Sedes Sapientiae
- ADNAM - Associação Democrática e Nacionalista dos Militares
- Comitê Catarinense Pró Memória dos Mortos e Desaparecidos Políticos
- Memorial dos Direitos Humanos – Santa Catarina
- Observatório das Violências Policiais – São Paulo
Nota de repúdio
As entidades abaixo-assinadas manifestam seu mais veemente repúdio à posição adotada pelo Advogado Geral da União, José Antônio Dias Tóffoli, em defesa dos agentes torturadores. Tal posição vai em sentido contrário dos anseios da Sociedade Brasileira, que exige apuração, responsabilizaçã o e punição de autores e mandantes de torturas contra presos políticos durante a ditadura militar.
As alegações da AGU servem de argumentos para a defesa dos torturadores e coloca a sociedade brasileira na condição de refém de criminosos impunes e acima da Lei. Essa impunidade é um convite a novas agressões aos direitos humanos por outros agentes do Estado atual.
Exigimos que a Advocacia Geral da União faça uma retratação pública de sua posição equivocada e se coloque ao lado da Justiça e da Verdade, contra a tortura e os torturadores.
Assinam:
- Fórum Permanente de ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo
- Grupo Tortura Nunca Mais - São Paulo
- Associação dos Anistiados e Aposentados do Estado de São Paulo
- Grupo Tortura Nunca Mais - Paraná
- Comissão de Familiares de Presos Políticos Mortos e Desaparecidos
- Fórum de Anistia e Reparação do Estado do Rio de Janeiro
- Instituto Sedes Sapientiae
- ADNAM - Associação Democrática e Nacionalista dos Militares
- Comitê Catarinense Pró Memória dos Mortos e Desaparecidos Políticos
- Memorial dos Direitos Humanos – Santa Catarina
- Observatório das Violências Policiais – São Paulo