Nossa História

 

Nascimento e consolidação de um campo político 

O início dos anos 1990 foi marcado por uma nova fase na luta de classes no Brasil. A derrota eleitoral da esquerda para Collor, a nova correlação de forças no plano mundial com o fim da União Soviética e das experiências socialistas no leste europeu, a ofensiva neoliberal do governo FHC, a reestruturação do Mundo do Trabalho e a derrota do Movimento Sindical na greve dos petroleiros em 1995 conformaram um conjunto de eventos marcantes que anunciam o início de um longo período de descenso da luta de massas. Neste contexto, o sucesso da marcha nacional realizada pelo MST em abril de 1997 reacendeu muitas esperanças. Muitos militantes buscavam o MST, descontentes com os rumos que a esquerda brasileira ia tomando.

A intensa participação de diversos movimentos, instituições, pastorais e partidos na construção das marchas estaduais do MST, naquele ano, constatou a capacidade de reorganização da esquerda em busca de uma maior unidade na luta. O processo de construção das marchas resultou na realização da Conferência em Itaici, plenária nacional convocada pelos movimentos sociais, em especial pelo MST, que reuniu pouco mais de trezentos militantes de várias regiões do Brasil. As ideias centrais que empolgaram o debate foram, por um lado, a necessidade de questionar o rumo da esquerda institucional e propor o resgate dos valores e práticas militantes rumo à Revolução Brasileira, bem como constituir as bases teóricas para um Projeto Popular para o Brasil e, por outro, a compreensão de que um ciclo político da esquerda brasileira já dava sinais de esgotamento e exigia todo um esforço de refundação, tanto no plano teórico e ético quanto no plano da ação e proposta organizativa.

 

De 1999 a 2000 Importantes construções internas e externas

 

Publicamos a 1ª elaboração teórica deste nosso campo: o livro “A Opção Brasileira”, assinado por diversos lutadores populares e sistematizado por César Benjamim, que foi um esforço de interpretação do Brasil, com propostas de saídas populares para a resolução dos problemas estruturais. Em 1999, viemos a público com a Marcha Popular pelo Brasil, um feito memorável que converteu-se num grande exemplo pedagógico.

Saímos no dia 26 de julho do Rio de janeiro e chegamos a Brasília em outubro de 1999, com 1.100 lutadoras e lutadores vindos de 23 estados, ligados a diferentes movimentos sociais. A Marcha percorreu mais de 1.600 quilômetros. Os caminhantes, alguns inicialmente analfabetos, iam parando nas cidades e fazendo palestras, conversas, debates em escolas, igrejas e associações, chegando a falar para cerca de 200 mil pessoas. Por onde passou, a Marcha recebeu a solidariedade e o apoio das organizações locais e da população, que saía para as ruas para fazer doações de suprimentos, dando força para a continuidade da caminhada.

O processo de preparação da marcha aglutinou centenas de militantes que atuaram garantindo a infraestrutura para a chegada nas cidades, organizando debates e ajudando na busca de recursos para a continuidade da marcha até Brasília. Avançamos muito no trabalho de formação política e participamos de lutas importantes que possibilitaram avançar num projeto organizativo.

Realizamos a I Assembleia Nacional dos Lutadores do Povo, em Brasília, de 8 a 10 de outubro de 1999, após a chegada da marcha. Voltamos para os estados carregados de energia para continuar o debate deixado pela marcha, para articular os núcleos e as lutas, porque a marcha não acabava ali, continuava na força da experiência que acabamos de realizar. Nesta assembleia definimos os cinco compromissos do Projeto Popular: Solidariedade, Soberania Popular, Desenvolvimento, Democracia Popular e Sustentabilidade.

 

A atualidade dos Cinco Compromissos do Projeto Popular.

 

São os cinco compromissos:

1.         O compromisso com a soberania, que é a conquista pelo povo brasileiro da capacidade de definir com autonomia seus próprios objetivos, bem como os caminhos que deseja trilhar para alcançá-los;

2.         O compromisso com a solidariedade, que exige a mobilização de todos os recursos e de toda a capacidade produtiva, técnica e cultural do Brasil para eliminar a miséria, a pobreza e a incultura, garantindo a todos um patamar comum de dignidade e igualdade;

3.         O compromisso com o desenvolvimento, ou seja, com o uso pleno de nossas terras, recursos, instalações produtivas e capacidade de trabalho, em um mutirão que nos retire da condição de país periférico e dependente;

4.         O compromisso com a sustentabilidade, que traz para o centro das preocupações a proteção ao ser humano e à natureza que nos cerca;

5.         O compromisso com a democracia popular, cuja construção passa por uma profunda reforma nas instituições de poder, bem como nos meios de comunicação de massas, para colocá-los sob o controle do povo.

Seguimos avançando em posicionamentos táticos cada vez mais claros, abertos e contundentes. Nas discussões que entremeiam esse crescimento político da Consulta Popular, todavia, vem se reafirmando a atualidade dos cinco compromissos e cinco tarefas essenciais, delineados em 1999, como estruturadores de uma ampla aliança no seio do povo para enfrentar o poder da burguesia brasileira associada ao imperialismo.

Nos primeiros anos, nossa grande tarefa foi a de estimular e multiplicar o debate e a formação com os militantes que não foram absorvidos pela crise ideológica que se disseminou no início dos anos 1990.

Todas as energias no Plebiscito Nacional da Dívida Externa: Em 2000 a esquerda social uniu forças em torno do Plebiscito Nacional da Dívida Externa, Campanha Jubileu 2000, por um milênio sem dívidas. O plebiscito foi organizado pela sociedade, realizado com lisura e transparência em todas as unidades da Federação, envolvendo milhares voluntários ligados a igrejas, movimentos sociais, partidos políticos, entidades de representação profissional e poderes públicos, realizada no dia 07 de setembro quando se comemora oficialmente o dia da pátria. Foi um momento de exercício pedagógico que unia formação, organização e luta. Por todo o Brasil, multiplicaram-se as secretarias do plebiscito da dívida, que formavam militantes para levar o debate para as ruas, escolas, igrejas, bairros cidades.

Raras vezes em nossa história atores tão diversos se uniram em torno de uma causa comum como esta. Foi assim na campanha do “Petróleo é nosso”, nos anos 50, nos anos 60 com a campanha pelas Reformas de Base, nos anos 70 com a campanha da Anistia e nos anos 80 com a campanha das Diretas. Mais de 5 milhões de brasileiras e de brasileiros participaram deste Plebiscito, 90% dos participantes disseram não ao pagamento da dívida.

 

Expressão Popular – 10 anos na batalha das ideias

Ainda em 2000 a Consulta Popular contribuiu decisivamente na constituição do projeto da Editora Expressão Popular. A editora é um patrimônio social que se consolidou na esquerda brasileira, tendo publicado as cartilhas e livros que nos ajudam a orientar nossa formação e acompanham o avanço das elaborações teóricas, resgatando o pensamento revolucionário e promovendo a batalha das ideias na sociedade.

Através do grande investimento na formação, a Expressão Popular contribuiu em todo o país com a construção de uma rede de militância crítica e atuante nas lutas sociais com um resgate dos valores, do pensamento e da prática revolucionária.

 

2001 a 2003: Intensas atividades em tempos de refluxo e fragmentação

Em fevereiro de 2001, a Consulta Popular se reuniu para debater o programa político junto às bases. Foi um momento de intenso debate, da mudança de qualidade e caráter político da organização, de um fórum de articulação para um movimento político autônomo, com propósito de aumentar sua organicidade. Esse processo foi sistematizado em três documentos de março de 2001. (“O momento político e o movimento da Consulta Popular”, “Elementos para debater a construção do Movimento Consulta Popular”, “Regras de funcionamento”.)

Ainda em 2001, a Consulta Popular realizou a primeira turma do curso Realidade Brasileira, em Juiz de Fora (MG). Já foram realizadas mais de 40 turmas do curso, que vem formando diversos militantes de inúmeras organizações populares, resgatando o estudo dos autores que pensaram o Brasil a partir do Brasil. Também foi realizado pela primeira vez o Curso Nacional da Consulta Popular, com o caráter de formação de formadores, em Ibirité (MG). O curso envolveu mais de 350 militantes, de quase todos os estados do país. Nos debruçamos ainda neste período sobre a realidade urbana, constituindo um grupo de estudos que veio a contribuir no Rio Grande do Sul no primeiro assentamento rururbano do MTD (Movimento dos Trabalhadores Desempregados), hoje um movimento presente em dez estados.

Em 2002 realizou-se o Plebiscito Popular da ALCA – Área de Livre comércio das Américas. Durante a campanha continental contra a ALCA participamos de uma importante frente que aglutinou as principais forças populares e organizações sociais de nosso hemisfério, que culminaram com a realização de um plebiscito em 2002. O Plebiscito Nacional sobre a ALCA e sobre a base de Alcântara foi realizado em todos os 27 estados da Federação, em quase 4 mil municípios e envolveu mais de 150 mil pessoas voluntárias de centenas de organizações populares, movimentos sociais do campo e da cidade, igrejas, sindicatos, federações sindicais, entidades estudantis, movimentos de mulheres, associações profissionais, ONGs e partidos políticos. Foram incontáveis debates públicos realizados em todo o país. Convidamos o povo brasileiro a se manifestar livremente no Plebiscito, realizado na Semana da Pátria, de 1º a 7 de setembro. No último dia de votação celebramos o Grito dos Excluídos com manifestações massivas sob o lema "Soberania não se negocia". O plebiscito teve 10.149.542 votantes, sendo que, do total, 98% – 9.979.964 pessoas – disseram não à assinatura do acordo com a ALCA. Entre os votantes apenas 1% – 113.643 mil votantes – manifestaram-se a favor da adesão do Brasil ao bloco econômico defendido pelos Estados Unidos. O Plebiscito Popular foi decisivo para assegurar a vitória contra a ALCA.

Em 2003 – Eleição de Lula para presidente do Brasil. Desde o final dos anos 1980, a eleição de Lula havia sido a grande meta-síntese que empolgou e unificou a esquerda brasileira. Mas o governo não cumpriu a expectativa histórica de rompimento com o neoliberalismo. Este cenário gerou ainda mais dispersão, apatia e uma grande divergência tática entre as forças populares.

Construção de um Jornal de esquerda – O Brasil de Fato. A leitura que sempre fizemos sobre a necessidade de democratização dos meios de comunicação e seu papel estratégico na luta do povo nos colocou diante de uma nova tarefa: a construção de um jornal de esquerda. Empenhamos toda nossa energia para construir junto com outras forças esse que é hoje um instrumento da esquerda na propagação de ideias e formação política, consolidando um campo de pensamento e de prática: o jornal Brasil de Fato, que foi lançado durante o Fórum Social Mundial de 2003.

 

2004 a 2010 A Retomada da Consulta como instrumento Político

 

Em 2004 lançamos o texto “Refundar a Esquerda para Refundar o Brasil” preparatório para a Plenária de Dirigentes sociais. Nesta plenária expressamos nossa disposição em construir um instrumento político que respondesse aos desafios da luta de classes. Com o processo de construção deste instrumento, convocamos a II Assembleia Nacional dos Lutadores e Lutadoras do Povo.

De 03 a 06 de março de 2005 realizamos a II Assembleia Nacional dos lutadores e lutadoras do Povo, em Goiânia (GO). Esta Assembleia elege nova Coordenação Nacional, com a responsabilidade de orientar a constituição dos novos núcleos da Consulta Popular, elaborar e orientar o debate sobre nosso Programa Político Estratégico e a organicidade. Definimos nossa intenção de nos converter numa organização política e iniciamos um rico e democrático processo interno, com dois anos de debates que envolveram militantes e núcleos de quase todo o país, sobre os temas centrais da Revolução Brasileira.

2005 – Assembleia Popular Nacional – Mutirão por um novo Brasil: Com entusiasmo e esperança, militantes e ativistas de todo o país inauguraram a Assembleia Popular Nacional. Oito mil homens e mulheres de movimentos sociais, da igreja e de organizações da sociedade civil estiveram no ginásio Nilson Nelson, em Brasília, para aprofundar o debate sobre projeto popular e o Brasil que queremos. Foram quatro dias de debates e reflexões sobre os desafios da esquerda brasileira e o seu papel fundamental para alterar a nossa realidade, por um país justo, livre e soberano.

De 15 a 18 de junho de 2006 realizamos a I Plenária Nacional da Consulta Popular, onde enfrentamos o debate da questão eleitoral e indicamos os cadernos de debates que impulsionaram os estudos preparatórios para a Assembleia Nacional.

Em 2007 foi a vez do Plebiscito pela anulação do leilão de privatização da Cia. Vale do Rio Doce. Mais de três milhões e 700 mil contra a privatização da Vale!

Ainda em 2007, comemorando os nossos 10 anos de existência, realizamos a III Assembleia Nacional da Consulta Popular “Apolônio de Carvalho” em Belo Horizonte, MG. Foi o momento principal de um longo e contínuo processo nacional de debates que iniciamos em 2005. Nesta Assembleia definimos o nosso programa estratégico publicado na cartilha 19 sob o título “Resoluções da 3ª Assembleia dos lutadores e lutadoras do Povo”.

Em 2008, iniciamos o “Curso Nacional do Programa Estratégico”, que é uma escola nacional de formação com etapas nacionais e regionais. Investimos neste processo por entender que converter-se numa organização de caráter partidário exige a construção de uma cultura política que valoriza e pratica o conceito de direção coletiva, que investe de forma persistente na organização de base e entende a importância da disciplina consciente.

O Curso Nacional do Programa Estratégico já realizou 03 etapas nacionais que foram multiplicadas em etapas regionais, em todas as regiões do Brasil durante os anos de 2008, 2009 e 2010. Foram mais de 300 militantes orgânicos que passaram pelo mesmo processo de formação, orientado nacionalmente pelo nosso programa estratégico e pelos desafios do processo de construção.

Dezembro de 2008 – II Plenária Nacional da Consulta Popular, em Guararema (SP). A plenária teve o nome de “Aurora Maria do Nascimento Furtado”, nela realizamos um resgate e balanço de nossa tática e definimos as resoluções para o próximo período.

Em 2009 realizamos a III Plenária Nacional “João Cândido”, em Guararema (SP). Nesta plenária definimos discutimos os desafios preparatórios da IV Assembleia Nacional, construindo um verdadeiro roteiro de debates que envolveu todos os núcleos e militantes no debate desses grandes desafios: Aprofundamento de nossa estratégia, Atualização da nossa tática, organização e Identidade.

Em 2011 Realizamos nossa IV Assembleia Nacional, homenageando o grande lutador do povo Carlos Marighella, que tem inspirado o nosso caminho de luta diante dos desafios impostos pela conjuntura e pelas nossas opções enquanto parte organizada da Classe trabalhadora. Nossa intenção não é somente superar os desafios. Mas também avançar no método coletivo de construção da organização e enfrentamento dos problemas

A IV Assembleia dos Lutadores e Lutadoras do Povo insere um 6º compromisso do Projeto Popular: O Compromisso com o Feminismo, superando a divisão sexual do trabalho e a opressão de gênero, condição para a efetiva emancipação humana.

Somos um Instrumento Político em construção e apostamos no caminho mais longo, mas que se baseia no exercício democrático e coletivo em todas nossas ações e formulações. Somos a Consulta Popular.