Defender a democracia e mudar o sistema político

Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, tem na sua trajetória vários escândalos de corrupção. É acusado pelo governo suíço de manter contas naquele país – para receber dinheiro proveniente de operações ilegais – e foi denunciado pelo Ministério Público brasileiro por desvio de dinheiro público.

Esse mesmo cidadão vem chantageando o governo nos últimos meses: em troca de não tocar o processo de impedimento da presidenta Dilma, pedido pela oposição, em especial o PSDB, Cunha esperava se salvar na Comissão de Ética da Câmara Federal, que discute se ele deve ou não ter seu mandato cassado pelos crimes dos quais é acusado.

Tão logo a bancada do PT anunciou que seus parlamentares votariam a favor da cassação de Cunha, o “chantageador geral da República” colocou em marcha o golpe do impeachment.

Rapidamente, as forças antinacionais e antipopulares comemoraram o pedido. Aécio Neves, o senador que até hoje parece que não entendeu que perdeu, chegou a torcer por um calendário eleitoral antecipado. Esses grupos, que andavam desgastados de tantas bravatas e poucos projetos, simbolizam o que a elite tem de pior: não aceitam as regras da nossa nascente e frágil democracia e querem sempre mais privilégios e menos direitos.

A lógica de conciliação de classes e projetos levada a cabo pela cúpula do PT – em especial nos últimos meses – demonstra agora sua completa falência. Ao tentar atender aos caprichos da direita e ceder em quase todas as esferas, o governo apostou suas fichas em uma tática perniciosa, que lhe custou a credibilidade.

Fica claro que tantas concessões – ajuste fiscal, corte em programas sociais, privatização e recuo no terreno dos direitos humanos, entre várias outras – não foram apenas resultado da chantagem. Sinalizam a crise profunda de horizonte estratégico do PT.

Eleita para desencadear mudanças progressistas, Dilma não vem cumprindo seu papel. Pior: seu governo vem se transformando apenas num balcão de negócios, em que o mais forte e o que grita mais acaba sempre vencendo.

Essa cartada de Cunha pode ser, assim, um explosivo sinal de alerta. Não se concilia com inimigos do povo. Eles não têm limites em defender seus interesses.

Os movimentos populares, partidos de esquerda e as forças progressistas seguem em sua justa luta, reivindicando mais direitos, menos cortes, soberania e transformações. Todavia, sabem que, frente a um golpe como este, não há dúvida: é preciso defender a democracia e denunciar os velhos senhores do poder, que tentam se apropriar da vida e do patrimônio público.

Volta às ruas também a luta por uma verdadeira reforma política. Esse mau exemplo de Eduardo Cunha escancara a podridão do sistema político brasileiro. Financiado por empresas, o deputado é fiel defensor de seus interesses, do alto de sua tribuna. Acusado com fartas provas de corrupção, é protegido por seus pares, sem que o povo possa se manifestar sobre os rumos de seu mandato. Assim como ele, diversos corruptos e corruptores têm suas ilegalidades protegidas pelo sistema judiciário, pela mídia, pelo Congresso.

É hora de defender a democracia. Muito além da garantia do mandato da presidenta, isto inclui a participação e soberania popular na definição dos rumos que o Brasil precisa seguir.  O povo tem um projeto e pode colocá-lo em marcha.