Despertemos a esquerda adormecida

*Por Herick Argôlo

 Foto: idanca.net
Foto: idanca.net

Em uma mão de Poker, um bom jogador, dentre outras variáveis, leva em consideração não só as cartas abertas na mesa mas também as que podem vir e como seus adversários reagirão a elas. Aquele que planeja uma linha sem avaliar as possibilidades e probabilidades dos cenários futuros está fadado a perder fichas ou, o que é tão ruim quanto, a deixar passar oportunidades de ganhá-las. Devido ao número de variáveis, a Política é muito mais complexa que o Poker, mas segue princípios semelhantes.

Mesmo com a crise econômica mundial e com o crescimento das contradições do projeto neodesenvolvimentista, nós da esquerda organizada não nos antecipamos ao reascenso do movimento de massas e não tecemos uma bandeira capaz de direcionar o povo para a disputa do poder. Sem ter empurrado previamente as fichas para o centro da mesa, deixamos passar uma oportunidade histórica de conduzir as massas ao encontro dos seus anseios autênticos nas Manifestações de Junho de 2013. Perdemos a disputa política e ideológica travada com as forças conservadoras e com a grande mídia pelos rumos das manifestações.

Ainda assim, temos o mérito de ter feito uma leitura precisa daquele momento, no qual havia enorme rechaço às representações e à falta de participação nas decisões políticas — o que abria uma possibilidade de luta contra o atual sistema político. Desse modo, boa parte de nós da esquerda e dos setores populares readequamos a nossa tática e desfraldamos o Plebiscito Popular por uma Constituinte Exclusiva e Soberana sobre o Sistema Político.

Pouco tempo após a semana de votação popular, entretanto, forças de esquerda que construíram a campanha passaram a questionar a validade tática da Constituinte. Grave erro. Não podemos esquecer que os elementos objetivos que levaram ao reascenso do movimento de massas no Brasil não foram retirados do baralho. Pelo contrário, a crise econômica aperta cada vez mais e potencializa uma crise social explosiva, ambas agravando a crise política, que tem como raiz a dominação econômica do sistema político.

Por sua vez, as forças conservadoras vêm crescendo através da manipulação dos descontentamentos causados pela aplicação de medidas econômicas neoliberais — que elas próprias ambicionam ver implementadas — e pelo caráter excludente do sistema político — que elas próprias logram manter preservado. Este paradoxo conservador só é possível porque a direita, habilmente, faz suas jogadas serem ratificadas em nome do Governo, que está cercado, acuado e não dá sinais de reação. Além disso, a direita percebeu rapidamente o potencial dessas crises e vem investindo suas fichas na disputa ideológica desse descontentamento, tentando influenciar as manifestações nas ruas em sentido conservador.

As crises que estamos vivenciando tendem a pôr as massas em movimento. Nós não podemos repetir o erro de deixar de planejar nossas ações de acordo com esse possível e provável cenário — o argumento de que a luta por uma Constituinte não é eficaz na conjuntura atual erra, justamente, por se limitar a uma visão estática das coisas. Precisamos criar o máximo de unidade possível na esquerda e articular o conjunto das nossas lutas com a bandeira da Constituinte, que é capaz de nos colocar na ofensiva e conduzir o descontentamento popular para a luta em direção ao poder.

Nossos inimigos apostam em jogar o povo contra o Governo e contra a esquerda. Para isso costuraram a bandeira do impeachment. Nós tecemos a bandeira da Constituinte para tornar concreto o sonho de realização de reformas estruturais e de um Projeto de Democratização do Estado Brasileiro. Paulo Freire dizia que "manter a esperança viva é em si um ato revolucionário". Enquanto nossos inimigos apostam no desespero, nós devemos edificar a esperança. Hasteemos a bandeira da Constituinte. Despertemos a esquerda adormecida.

*Herick Argôlo, militante da Consulta Popular em Sergipe