João Pedro Stédile afirma a necessidade de um projeto de país

Dirigente aponta que é preciso combinar a luta de massas, a formação política de militantes e da massa, com o debate de projeto

por Monyse Ravenna

Liderança do MST, Via Campesina e militante histórico da Consulta Popular desde o seu início, em 1997, João Pedro Stédile aponta a necessidade estratégica de aliança entre as forças populares e a construção de um programa que, como diz, “resolva os problemas do povo”.

Além de ser um espaço de resistência aos ataques do governo golpista de Temer, a Frente Brasil Popular tem se dedicado a pensar este programa de médio e longo prazo.

“Está colocado é a necessidade de termos força organizada para implementar um projeto de pais, que resolva os problemas do povo, e promova reformas estruturais, como a  reforma política, a reforma agraria, a reforma tributária, a reforma dos meios de comunicação, a reforma do poder judiciário e a construção de uma economia nacional com forte”, afirma Stédile. Confira a entrevista na íntegra.  

Comunicação 5ª Assembleia - A Consulta Popular compõe a Frente Brasil Popular (FBP) e defende que a articulação tem um papel estratégico na reorganização da esquerda. O que a Frente precisa ser para ocupar esse lugar?

João Pedro Stédile. A Frente Brasil Popular desempenha um papel importante de aglutinar a maior parte das forças populares, desde o campo sindical, partidário, estudantil, juventude, camponeses e movimentos urbanos.  Tivemos uma atuação importante na mobilização popular para frear a ganancia do governo golpista. Não conseguimos derrubar o governo, porém o seu custo político é enorme, e é o governo com menor aceitação popular em toda história. Ou seja eles dominam, mas não tem legitimidade.

A Frente também tem uma construção programática?

Apresentamos de forma unitária uma proposta de Plano Popular de Emergência, para mostrar para o povo que temos saída para a crise. Mas precisamos dar passos mais avançados para debater um projeto para o Brasil de longo prazo, que coloque no debate as necessárias reformas estruturais, que a sociedade brasileira precisa. Precisamos ter uma organicidade maior da FBP, na constituição de comitês populares de base nos municípios, bairros e setores.  Para que nossa unidade política tenha organicidade e possamos atuar de forma conjunta nas lutas e no debate com o povo. Talvez a maior tarefa que temos é justamente a de realizar o trabalho de pedagogia de massas.  Levar e debater as ideias com o povo, conscientizá-lo, educá-lo politicamente e para isso precisamos voltar a fazer trabalho de base, construir nossos meios de comunicação populares, pois o ano de 2018, não é apenas um ano eleitoral, será um ano aonde a luta de classes vai se intensificar em todos os sentidos.

 A CP defende, desde seu nascimento, a necessidade de um Projeto Popular. Isso seria um programa possível de ser apresentado hoje? Como um projeto popular acumula para uma ruptura revolucionária?

O momento atual é de resistência. Lutar em defesa dos direitos e pela volta da democracia. Para termos então um governo popular, representante da maioria do povo, sem conciliação de classes. Um governo desse tipo terá uma missão de emergência: revogar as perversidades dos golpistas e iniciar um novo caminho. Porém, a longo prazo, precisamos ter um roteiro, um guia de mudanças estruturais, e esse é o papel do debate de um projeto de país. Na FBP, já temos um agrupamento com vários intelectuais, dirigentes de movimentos populares e de partidos participando da construção de um projeto.  Mas um projeto de pais somente se viabiliza com ampla participação das massas, no seu debate e conhecimento.  E ele só se materializa com o reascenso do movimento de massas.  Daí precisamos ir combinando a luta de massas, a formação política de militantes e da massa, com o debate de projeto.

Tudo isso caracteriza um longo período histórico para sair da resistência e ir acumulando forças para as mudanças necessárias.  Não está colocada na agenda uma ruptura revolucionaria.  Está colocado é a necessidade de termos força organizada para implementar um projeto de pais, que resolva os problemas do povo, e promova reformas estruturais, como a  reforma política, a reforma agraria, a reforma tributária, a reforma dos meios de comunicação, a reforma do poder judiciário e a construção de uma economia nacional forte. Isso tudo demora tempo, e do ponto de vista institucional somente se resolverá com a convocação de uma assembleia constituinte, que refunde o estado brasileiro.  Mas de novo, ela somente vira se tivermos mobilizações de massa.

O que a Consulta Popular e os movimentos populares esperam de uma candidatura de Lula? 

Houve um golpe institucional no país, que gerou um governo golpista, ilegítimo que está aplicando uma política para salvar apenas as grandes empresas, os bancos e oferecer todas nossas riquezas para o capital estrangeiro. Privatizando o pré-sal, a energia elétrica e os aeroportos. E agora já falam em privatizar Banco do Brasil, Caixa, Correios.  Fizeram uma reforma trabalhista vergonhosa tirando todos direitos dos trabalhadores conquistados a duras penas em 100 anos de luta.  E querem acabar com a previdência.

A saída para essa crise política, econômica e agora de legitimidade do governo são as eleições.  O povo é que precisa decidir.  E a burguesia está dividida e provavelmente vai apresentar diversos candidatos, pois não tem unidade entre eles, como o Alckmin, Bolsonaro, Doria, Huck, entre outros. Do lado da classe média, eles estão órfãos, pois nem a Marina [Silva] representa mais eles.  E do lado da classe trabalhadora, temos o Lula. O Lula simboliza a unidade da classe.  Ele é a classe nesse momento.  E sua participação garante legitimidade ao pleito e garante que a classe trabalhadora possa apresentar um projeto alternativo, para sair da crise econômica, social e política que estamos envolvidos.

Apoiar o Lula é uma condição da classe trabalhadora.  E eleição sem Lula é fraude. Por isso todas as forças da classe trabalhadora devem apoiar o Lula e a maioria dos movimentos populares que participamos da Frente Brasil Popular, como MST, Consulta Popular, movimentos da Via Campesina, juventudes, já estamos engajados nessa luta. Pela primeira vez em décadas, teremos uma campanha eleitoral que será uma verdadeira luta de classes, com candidatos representando as classes, sem intermediações ou fantasias.