Para nós, é necessário retomar a democracia e recolocar a decisão nas mãos do povo brasileiro

FBP. O Plano Popular de emergência e o enraizamento da Frente Brasil Popular estão entre os principais temas da entrevista.

Monyse Ravena

Eduardo Mara é cientista social, doutor em serviço social pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e membro da Direção Nacional da Consulta Popular. Na entrevista concedida ao Brasil de Fato Pernambuco ele reitera o papel e a importância da Frente Brasil Popular na luta contra o golpe em curso no Brasil." 

Brasil de Fato - Hoje, na Frente Brasil Popular, qual o eixo que orienta a unidade entre os movimentos sindicais e os movimentos populares? 

Eduardo Mara - Eu diria que existem dois eixos principais e interdependentes. O primeiro deles é a luta contra o retrocesso e a barbárie imposta pela retomada das reformas neoliberais e que pode ser resumida na palavra de ordem “Nenhum Direito a Menos”. A maior expressão disso hoje são as lutas contra as reformas da previdência e trabalhista que mobilizaram as duas grandes paralisações nacionais do dia 28 de abril e agora no último dia 30 [de junho]. Para nós, é necessário retomar a democracia e recolocar a decisão nas mãos do povo brasileiro. Daí a importância da bandeira das “Diretas Já” que tem crescido em setores importantes da sociedade, envolvendo a classe trabalhadora, os setores médios, intelectuais e artistas em todo o Brasil. Articulado a isso, acreditamos ser necessário articular essa lutas a um projeto autônomo da classe trabalhadora, capaz de inserir a maioria do nosso povo de forma ativa na disputa pelo poder.  

BdF - Qual o objetivo do plano popular de emergência? Eduardo Mara - São dois os objetivos principais. O primeiro é retomar o debate programático de forma unitária em toda a esquerda brasileira e nos movimentos populares e sindicais. O segundo e talvez o mais importante é servir de instrumento de trabalho com nosso povo, de retomada do trabalho de base. O plano é, assim, a convergência entre as necessidades reais vividas pela classe trabalhadora e a construção de organização e luta permanente para disputar o poder na sociedade.  

BdF - Para você, quais são os destaques entre as propostas do Plano Popular de Emergência?

 Eduardo Mara - Entre os dez eixos temáticos que compõe o plano eu destacaria o primeiro que trata da democratização do Estado. Ele perpassa todas as questões do plano. Não haverá retomada do emprego e da renda, acesso à moradia e à terra pra plantar, direito à saúde e educação garantidos se não houver a derrota do governo ilegítimo nas ruas e a retomada da democracia. Esse eixo inclui a luta pela democratização do judiciário, hoje um declarado inimigo da democracia; a democratização da mídia, hoje monopolizada por não mais do que cinco grandes famílias cujos interesses andam de mãos dadas com grupos internacionais sem compromisso algum com o desenvolvimento do nosso país.Além disso, o plano prevê, e eu destaco como fundamental, a revogação de todas as medidas de caráter antipopular, antinacional e antidemocrático efetuadas pelo atual governo. Sem isso é impossível pensarmos a retomada de um projeto de desenvolvimento soberano de nossa economia. Há também no plano propostas para colocar na ordem do dia a luta pela terra e o sonho da reforma agrária, essencial para a construção de nossa soberania, a retomada e melhoria de programas sociais como “Minha casa, minha vida” e, não menos importante, a retomada e fortalecimento de uma política externa cujas alianças no âmbito do comércio internacional construam possibilidades de romper o atual papel ocupado pelo Brasil na divisão internacional do trabalho. 

BdF - O que a Frente Brasil Popular e o Plano Popular de Emergência estão apontando como possibilidade de superação para esse cenário de crise política e social?

Eduardo Mara - A única solução nesse momento é derrotar esse governo pela pressão e mobilização popular por direitos e por eleições diretas e, a partir daí, recolocar um projeto de reformas populares na ordem do dia. Sabemos, ademais, que no médio prazo só será possível a retomada de um projeto de mudanças substantivas na vida do povo se superarmos o sistema político atual e refundarmos o Estado brasileiro. Daí a importância do horizonte político de uma Constituinte Popular e Soberana para que a população possa debater e decidir sobre qual o Brasil que queremos.  

BdF - Qual o calendário principal nacionalmente e em Pernambuco que a Frente Brasil Popular aponta? 

Eduardo Mara - Nosso principal desafio tanto nacionalmente quanto aqui no estado é ampliar a presença da Frente Brasil Popular em qualquer lugar onde possa haver povo organizado lutando por direitos e democracia. Em Pernambuco será decisivo o passo que daremos no próximo sábado, 15 de julho, no Recife. Vamos reunir todas as regiões do estado e movimentos populares e sindicais para planejar e dar início a um grande mutirão de trabalho nas cidades, bairros, locais de trabalho do sertão ao litoral, dando continuidade à construção das Caravanas Populares pela Democracia. E faremos isso em meio à resistência central e imediata à votação da reforma trabalhista. Estamos indicando nacionalmente ocupar as ruas no dia da votação da denúncia do processo contra o presidente Michel Temer e a realização de atividades com o objetivo de pressionar os senadores no dia da votação da reforma trabalhista. Além disso, teremos nos dias 18 e 19 deste mês em São Paulo uma reunião nacional do conjunto dos movimentos e entidades populares e sindicais que compõe a frente para planejar um calendário mais amplo de lutas. 



Fonte: 

Brasil de  Fato Pernambuco